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Pedro Zaninetti apresenta palestra na Rio2025



Na conferência da Sociedade Numismática Brasileira, Pedro Zaninette apresentou pesquisa sobre as reformas monetárias de Abd al-Malik ibn Marwan (685–705).

Antes de suas reformas, circulavam moedas bizantinas e sassânidas adaptadas com inscrições árabes. Em meio a guerras civis e disputas religiosas, o califa promoveu a padronização monetária islâmica, culminando na criação do dinar anicônico de 77 H., com inscrições exclusivamente corânicas em estilo cúfico.

A reforma consolidou a identidade política e religiosa do Califado Omíada e estabeleceu as bases da numismática islâmica clássica, influenciando emissões por séculos no mundo islâmico.





As Reformas Monetárias de ʿAbd al-Malik e a Formação da Numismática Islâmica Clássica

Durante evento promovido pela Sociedade Numismática Brasileira, o pesquisador Pedro Zaninette, mestrando em Humanidades pela Universidade de São Paulo em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia, apresentou estudo sobre as reformas monetárias do califa omíada Abd al-Malik ibn Marwan e seu impacto estrutural na formação da numismática islâmica.

A exposição contextualizou o período de transição entre o Califado Ortodoxo e o Califado Omíada, destacando as transformações políticas, religiosas e econômicas que culminaram na padronização monetária islâmica no final do século VII.


Contexto Político: Da Sucessão de Maomé à Dinastia Omíada

Após a morte do profeta Maomé, a comunidade islâmica enfrentou disputas sucessórias que resultaram na formação do Califado Ortodoxo (632–661). Posteriormente, com a ascensão de Muawiya I, estabeleceu-se a dinastia omíada, transferindo a capital de Meca para Damasco.

Esse deslocamento geopolítico alterou o eixo administrativo do império e aprofundou tensões internas, desencadeando guerras civis entre omíadas, zubairidas, carijitas e partidários de Ali. Foi nesse cenário de fragmentação que ʿAbd al-Malik assumiu o poder em 685 d.C., iniciando um amplo programa de centralização política e reforma administrativa.


O Sistema Monetário Antes das Reformas

Até o final do século VII, o mundo islâmico utilizava predominantemente moedas herdadas de dois grandes impérios derrotados:

  • O Império Bizantino

  • O Império Sassânida

Inicialmente, as moedas circulavam sem alterações. Em seguida, surgiram emissões chamadas “árabe-bizantinas” e “árabe-sassânidas”, que mantinham a iconografia original (imperadores ou xás) com acréscimos de inscrições árabes como bismillah (“em nome de Deus”).

Esse período híbrido demonstra uma fase de adaptação cultural e administrativa, mas ainda sem identidade monetária plenamente islâmica.


A Reforma de ʿAbd al-Malik

Diante da instabilidade política e da necessidade de consolidar autoridade, ʿAbd al-Malik promoveu reformas estruturais:

  1. Organização de um exército permanente

  2. Arabização da administração estatal

  3. Reforma monetária completa

Inicialmente, o califa emitiu moedas com sua própria imagem — figura em pé segurando espada — substituindo símbolos cristãos, como a cruz bizantina (cuja haste horizontal foi removida). Contudo, essa iconografia gerou controvérsias religiosas, pois a tradição islâmica desencoraja representações figurativas, especialmente associadas ao sagrado.

A solução definitiva veio em 696–697 (ano 77 da Hégira), com a introdução do chamado “dinar anicônico”.


O Dinar 77: Marco da Numismática Islâmica

O novo modelo eliminou completamente imagens, adotando exclusivamente inscrições corânicas em estilo cúfico. Entre as inscrições estavam:

  • A Shahada (profissão de fé islâmica)

  • Versículos do Alcorão

  • Declarações de unicidade divina

Essa padronização consolidou um sistema monetário ideologicamente coerente com os princípios islâmicos e politicamente desvinculado de Bizâncio e da Pérsia.

O dinar reformado tornou-se modelo para o mundo islâmico por séculos, influenciando emissões desde o Magrebe até o subcontinente indiano.


Impacto Histórico

A reforma monetária de ʿAbd al-Malik representou:

  • Afirmação de soberania política

  • Uniformização administrativa

  • Consolidação identitária religiosa

  • Marco fundacional da numismática islâmica clássica

Posteriormente, governantes como Saladino retomariam modelos figurativos sob novas leituras políticas, mas o paradigma anicônico estabelecido no final do século VII permaneceu dominante.

Assim, as moedas deixam de ser apenas instrumentos econômicos e tornam-se veículos ideológicos, articulando fé, poder e legitimidade estatal.


 



Fonte:

Autor do blog: Nilton Romani

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