Na conferência da Sociedade Numismática Brasileira, Pedro Zaninette apresentou pesquisa sobre as reformas monetárias de Abd al-Malik ibn Marwan (685–705).
Antes de suas reformas, circulavam moedas bizantinas e sassânidas adaptadas com inscrições árabes. Em meio a guerras civis e disputas religiosas, o califa promoveu a padronização monetária islâmica, culminando na criação do dinar anicônico de 77 H., com inscrições exclusivamente corânicas em estilo cúfico.
A reforma consolidou a identidade política e religiosa do Califado Omíada e estabeleceu as bases da numismática islâmica clássica, influenciando emissões por séculos no mundo islâmico.
Durante evento promovido pela Sociedade Numismática Brasileira, o pesquisador Pedro Zaninette, mestrando em Humanidades pela Universidade de São Paulo em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia, apresentou estudo sobre as reformas monetárias do califa omíada Abd al-Malik ibn Marwan e seu impacto estrutural na formação da numismática islâmica.
A exposição contextualizou o período de transição entre o Califado Ortodoxo e o Califado Omíada, destacando as transformações políticas, religiosas e econômicas que culminaram na padronização monetária islâmica no final do século VII.
Após a morte do profeta Maomé, a comunidade islâmica enfrentou disputas sucessórias que resultaram na formação do Califado Ortodoxo (632–661). Posteriormente, com a ascensão de Muawiya I, estabeleceu-se a dinastia omíada, transferindo a capital de Meca para Damasco.
Esse deslocamento geopolítico alterou o eixo administrativo do império e aprofundou tensões internas, desencadeando guerras civis entre omíadas, zubairidas, carijitas e partidários de Ali. Foi nesse cenário de fragmentação que ʿAbd al-Malik assumiu o poder em 685 d.C., iniciando um amplo programa de centralização política e reforma administrativa.
Até o final do século VII, o mundo islâmico utilizava predominantemente moedas herdadas de dois grandes impérios derrotados:
O Império Bizantino
O Império Sassânida
Inicialmente, as moedas circulavam sem alterações. Em seguida, surgiram emissões chamadas “árabe-bizantinas” e “árabe-sassânidas”, que mantinham a iconografia original (imperadores ou xás) com acréscimos de inscrições árabes como bismillah (“em nome de Deus”).
Esse período híbrido demonstra uma fase de adaptação cultural e administrativa, mas ainda sem identidade monetária plenamente islâmica.
Diante da instabilidade política e da necessidade de consolidar autoridade, ʿAbd al-Malik promoveu reformas estruturais:
Organização de um exército permanente
Arabização da administração estatal
Reforma monetária completa
Inicialmente, o califa emitiu moedas com sua própria imagem — figura em pé segurando espada — substituindo símbolos cristãos, como a cruz bizantina (cuja haste horizontal foi removida). Contudo, essa iconografia gerou controvérsias religiosas, pois a tradição islâmica desencoraja representações figurativas, especialmente associadas ao sagrado.
A solução definitiva veio em 696–697 (ano 77 da Hégira), com a introdução do chamado “dinar anicônico”.
O novo modelo eliminou completamente imagens, adotando exclusivamente inscrições corânicas em estilo cúfico. Entre as inscrições estavam:
A Shahada (profissão de fé islâmica)
Versículos do Alcorão
Declarações de unicidade divina
Essa padronização consolidou um sistema monetário ideologicamente coerente com os princípios islâmicos e politicamente desvinculado de Bizâncio e da Pérsia.
O dinar reformado tornou-se modelo para o mundo islâmico por séculos, influenciando emissões desde o Magrebe até o subcontinente indiano.
A reforma monetária de ʿAbd al-Malik representou:
Afirmação de soberania política
Uniformização administrativa
Consolidação identitária religiosa
Marco fundacional da numismática islâmica clássica
Posteriormente, governantes como Saladino retomariam modelos figurativos sob novas leituras políticas, mas o paradigma anicônico estabelecido no final do século VII permaneceu dominante.
Assim, as moedas deixam de ser apenas instrumentos econômicos e tornam-se veículos ideológicos, articulando fé, poder e legitimidade estatal.
Nilton Romani