No congresso da Sociedade Numismática Brasileira, Richard Cacchioni apresentou estudo sobre a atuação internacional de Irineu Evangelista de Sousa.
O trabalho analisou a fundação de bancos no Brasil, Uruguai e Argentina, a emissão de papel-moeda regional e as divergências catalográficas envolvendo essas cédulas. Destacou-se a importância das casas impressoras britânicas e norte-americanas, bem como o impacto das crises financeiras da década de 1870 no encerramento das operações.
Conclui-se que Mauá foi não apenas um industrial visionário, mas também um articulador financeiro regional, cuja atuação marcou profundamente a história econômica e a numismática do Cone Sul.
Durante congresso promovido pela Sociedade Numismática Brasileira, o pesquisador e bibliógrafo Richard Cacchioni apresentou um estudo aprofundado sobre a atuação financeira e bancária de Irineu Evangelista de Sousa, figura central no processo de modernização econômica do Brasil no século XIX.
A conferência destacou não apenas sua trajetória empresarial no Império, mas também sua dimensão internacional, com operações bancárias no Uruguai e na Argentina, além da emissão de papel-moeda que hoje constitui um dos campos mais complexos e fascinantes da notafilia sul-americana.
Nascido em 1813, no Rio Grande do Sul, Mauá teve origem modesta. Ainda jovem ingressou no comércio, estabelecendo vínculos com empresários britânicos — experiência decisiva para sua visão industrial e financeira. Após viagem à Inglaterra em 1840, retornou ao Brasil com forte influência da Revolução Industrial.
Durante o reinado de Pedro II, integrou-se ao projeto de modernização do Império, investindo em infraestrutura, indústria naval, iluminação a gás e ferrovias — destacando-se a Estrada de Ferro Mauá (1854), considerada a primeira ferrovia do Brasil.
Mauá participou da reorganização do terceiro Banco do Brasil e fundou, em 1854, a sociedade bancária Mauá, MacGregor & Cia.
Seu projeto ultrapassou fronteiras:
Uruguai (Montevidéu): criou inicialmente uma casa de câmbio (1855), transformada em banco comercial em 1857, com autorização legislativa.
Argentina (Rosário): abriu sucursal que emitiu bilhetes próprios, muitos deles impressos por casas britânicas como Bradbury Wilkinson.
Posteriormente fundou também a Caja de Oros em Rosário.
Essas instituições emitiram papel-moeda em diferentes padrões monetários (centésimos, pesos e réis), refletindo a complexidade econômica regional e o intenso comércio na Bacia do Prata.
A análise numismática revelou:
Divergências entre catálogos internacionais e registros oficiais do Banco Central do Uruguai.
Bilhetes assinados em 1858 catalogados como pertencentes a emissões de 1860.
Diferenças de designação monetária (meio peso versus 480 centésimos).
Séries registradas em catálogos internacionais sem exemplares conhecidos.
Provas e specimens impressos pela American Bank Note Company e National Bank Note Company.
Ao todo, foram identificadas dezenas de cédulas emitidas no Uruguai e 18 na Argentina, muitas extremamente raras.
As crises financeiras internacionais da década de 1870 — que afetaram América Latina, Estados Unidos e Europa — impactaram diretamente os bancos ligados a Mauá. Em 1877, o banco no Brasil foi liquidado.
Demonstrando postura ética rara no período, Mauá comprometeu sua fortuna pessoal para quitar obrigações no Brasil, Argentina e Uruguai, encerrando a vida financeiramente arruinado, mas preservando sua reputação.
Faleceu em 1889, pouco antes da Proclamação da República.
O legado de Mauá permanece visível:
Monumentos no Brasil e Uruguai
Ponte internacional ligando Brasil e Uruguai com seu nome
Emissão de moeda comemorativa de 200 réis na série “Brasileiros Ilustres” durante o governo de Getúlio Vargas
Sua trajetória demonstra como a moeda e o sistema bancário são instrumentos centrais na construção do Estado e na integração regional.
Nilton Romani