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Vamos aprender sobre cunhagens feitas em Bruxelas para Ibero-Am

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A Casa da Moeda de Bruxelas e as Cunhagens Ibero-Americanas: Uma História de Conexões Numismáticas

Introdução

A história numismática ibero-americana não pode ser compreendida apenas a partir das casas da moeda nacionais. Ao longo do século XIX e XX, diversas nações recorreram a oficinas estrangeiras para suprir demandas monetárias urgentes, técnicas ou estratégicas. Entre essas instituições, destaca-se a Casa da Moeda de Bruxelas, na Bélgica, cuja atuação foi decisiva para vários países da América Latina, Espanha e Portugal.

Este artigo apresenta uma análise histórica das cunhagens realizadas em Bruxelas para nações ibero-americanas, contextualizando contratos, volumes de produção, aspectos técnicos e episódios pouco conhecidos.


Origens da Cunhagem em Bruxelas

A atividade monetária em Bruxelas remonta ao século X (tradicionalmente datada entre 965 e 983). Após a independência da Bélgica em 1830, a Casa da Moeda passou a estruturar-se como instituição moderna.

Figura central nesse processo foi Joseph Allard, joalheiro, banqueiro e diretor da Casa da Moeda a partir de 1846. Sob sua liderança, a instituição expandiu significativamente suas atividades internacionais, especialmente após a Guerra Franco-Prussiana (1870), quando vários clientes deixaram de cunhar moedas na França e na Alemanha.

Inicialmente empresa privada, a Casa da Moeda de Bruxelas tornou-se pública em 1933. Em 2017, encerrou definitivamente suas atividades, passando a produção monetária belga para a Casa da Moeda dos Países Baixos.


Brasil: O Maior Cliente Latino-Americano

O Brasil foi o principal cliente ibero-americano da Casa da Moeda de Bruxelas.

As primeiras provas ocorreram em 1863 (20 e 40 réis). Em 1869, foram cunhadas grandes quantidades de moedas de 10 e 20 réis em cobre. Em 1871 e 1901, seguiram-se emissões de 100, 200 e 400 réis.

No total, foram produzidas aproximadamente 229 milhões de moedas brasileiras em Bruxelas, correspondendo a cerca de 1.338 toneladas de metal — a maior cunhagem latino-americana realizada pela instituição.

Um detalhe relevante: como a Casa da Moeda era privada na época, os contratos foram firmados diretamente entre o Governo Imperial do Brasil e Joseph Allard, e não com o Estado belga.


Peru e Venezuela: Emergência Monetária e União Latina

Em 1879, o Peru enfrentava escassez monetária e dificuldades operacionais na Casa da Moeda de Lima. Bruxelas cunhou moedas de 5 e 10 centavos em cobre-níquel, material então relativamente novo.

No mesmo período, a Venezuela buscava alinhar-se tecnicamente à União Monetária Latina. Embora rejeitada formalmente pela França, adotou padrões equivalentes (leis 835, 900 etc.) e recorreu à Bélgica para cunhar:

  • 1/5 bolívar

  • ½ bolívar

  • 1, 2 e 5 bolívares (prata)

  • 20 bolívares (ouro)

Curiosamente, essas primeiras moedas em bolívares não apresentavam valor facial explícito.

Documentos de arquivo revelam a origem do ouro utilizado: lingotes, moedas russas, japonesas, austríacas e espanholas — evidência da circulação internacional de metal precioso.


Colômbia: Contratos e Peculiaridades Técnicas

A Colômbia recorreu a Bruxelas no final do século XIX. Um episódio curioso envolve moedas de 10 centavos cuja liga foi produzida com teor de prata 0,665 em vez de 0,666 — diferença aceitável dentro da tolerância contratual.

Houve ainda projetos não concretizados devido a impasses diplomáticos entre representantes franceses e colombianos.


El Salvador e Haiti: Bancos Privados e Produção Fragmentada

El Salvador contratou cunhagens em quatro ocasiões (1904–1913), não por meio do Banco Central, mas por bancos comerciais.

No caso do Haiti (1846), a produção foi distribuída entre três instalações diferentes na Bélgica, incluindo fábricas privadas, antes da finalização na Casa da Moeda de Bruxelas.


Espanha e País Basco: Guerra e Experimentação

Durante a Terceira Guerra Carlista (1876), houve cooperação entre a Casa da Moeda de Oñate e Bruxelas.

Também foram cunhadas moedas do País Basco durante a Guerra Civil Espanhola, incluindo exemplares em alumínio-bronze — material inovador na época. Algumas peças foram interceptadas, mas posteriormente circularam.


Equador: Contratos Indiretos

Nos anos 1990, o Equador não contratou diretamente a Casa da Moeda, mas empresas privadas fornecedoras de metal, que subcontrataram Bruxelas para a cunhagem de milhões de moedas de sucre.

Esse modelo ilustra a transformação do mercado monetário internacional no final do século XX.


Casos Singulares: Reinos Efêmeros e Provas Raras

Entre os episódios mais curiosos estão:

  • Moedas do chamado Reino da Araucânia e Patagônia, projeto monárquico efêmero no sul da América do Sul.

  • Provas para Portugal (1862) com design similar ao belga.

  • Ensaios da chamada República Independente da Guiana.

  • Provas argentinas de patacón, cuja oficialidade ainda é debatida.


Uruguai: Negócios Não Concretizados

Houve tentativas de contrato com o Uruguai em 1936, mas diferenças de preço — em comparação com Viena — impediram a concretização.

Documentos preservados mostram inclusive cotações de transporte marítimo desde Antuérpia até Montevidéu.


Conclusão

A Casa da Moeda de Bruxelas desempenhou papel significativo na história numismática ibero-americana, atuando como fornecedora estratégica em momentos de crise, modernização monetária ou reorganização política.

Sua atuação revela:

  • A interdependência monetária internacional

  • A importância técnica do cobre-níquel e do alumínio-bronze

  • A influência de redes bancárias privadas

  • A relevância diplomática dos contratos de cunhagem

Mais do que simples produção metálica, essas moedas representam conexões históricas entre Europa e América Latina, evidenciando que a numismática é também história econômica global.

A trajetória de Bruxelas encerra-se institucionalmente em 2017, mas seu legado permanece nas coleções, arquivos e na memória monetária de diversos países ibero-americanos.

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