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A Mecanização das Casas da Moeda Espanholas e a Influência Portuguesa na Cunhagem Monetária do Século XVIII

A evolução tecnológica da cunhagem de moedas na Europa durante os séculos XVII e XVIII representou um momento decisivo para a modernização dos sistemas monetários. A palestra apresentada pelo pesquisador Glen Murray em evento da Sociedade Numismática Brasileira analisa o processo de mecanização das Casas da Moeda espanholas e destaca a importante influência portuguesa na introdução definitiva das prensas mecânicas utilizadas na produção monetária.

O estudo concentra-se principalmente nas Casas da Moeda de Madrid e Sevilla entre aproximadamente 1700 e 1730, período marcado por sucessivas tentativas de substituir métodos tradicionais de cunhagem manual por técnicas mecanizadas mais eficientes. A pesquisa teve como objetivo inicial identificar as técnicas utilizadas na produção das moedas desse período, mas a análise documental revelou a atuação decisiva de técnicos portugueses na transformação tecnológica das oficinas monetárias espanholas.

Antes da mecanização definitiva, a produção monetária espanhola utilizava predominantemente o sistema de cunhagem a martelo, método artesanal amplamente empregado durante séculos. Entre 1661 e 1664, diversas casas da moeda espanholas passaram por processos de mecanização utilizando engenhos de cunhagem a rodillo (laminação por cilindros). Embora tecnicamente funcionais, muitos trabalhadores resistiam à mudança e continuavam preferindo o método tradicional.

Em 1687, o rei Carlos II proibiu oficialmente a cunhagem de moedas de ouro e prata a martelo, obrigando as casas da moeda a adotarem métodos mecanizados. Apesar dessa determinação, as experiências iniciais enfrentaram dificuldades técnicas e resistência interna.

Uma das primeiras tentativas de introdução das prensas de volante ocorreu em Sevilla entre 1699 e 1701, conduzida pelo técnico português Ponseca. Esse sistema permitia produzir moedas mais uniformes e com acabamento superior, incluindo cordões ou inscrições nas bordas, inovação importante para combater falsificações. Entretanto, registros históricos indicam que os equipamentos sofreram sabotagens por parte dos operários, além de problemas mecânicos, levando ao abandono da técnica após poucos anos.

Nova tentativa ocorreu em Madrid em 1709, desta vez conduzida por técnicos franceses. Apesar da boa qualidade das moedas produzidas, o projeto fracassou rapidamente devido à má organização estrutural da Casa da Moeda. O processo de laminação dos metais ocorria em outro local, exigindo transporte constante do material pelas ruas da cidade, o que inviabilizou a continuidade da produção mecanizada.

Diante dessas dificuldades, Madrid e Sevilla passaram novamente a utilizar o sistema de cunhagem a rodillo durante as primeiras décadas do século XVIII. Esse método consistia na gravação das moedas em lâminas metálicas contínuas, posteriormente recortadas individualmente. Embora eficiente, apresentava limitações técnicas visíveis nas moedas, como bordas irregulares e leve deformação conhecida como alabeamento, que dificultava inclusive o empilhamento das peças em atividades comerciais e bancárias.

A transformação definitiva ocorreu entre 1728 e 1729, quando o rei Felipe V convocou o técnico português Antonio Martínez de Almeida, proveniente da Casa da Moeda de Lisboa, para implementar um novo sistema mecanizado em Madrid. Almeida permaneceu cerca de seis meses instalando prensas de volante e reorganizando o processo produtivo. Posteriormente, foi enviado a Sevilla, onde realizou a mesma modernização durante aproximadamente quinze meses.

Esse processo coincidiu com o chamado “Lustro Real”, período em que a corte espanhola esteve instalada em Sevilla entre 1729 e 1733, permitindo acompanhamento direto das reformas pelo próprio monarca e seus conselheiros. As máquinas introduzidas incluíam sistemas de hileras (refinamento das lâminas metálicas), máquinas recortadoras e robustas prensas de volante conhecidas como “volantes à portuguesa”.

Diferentemente das experiências anteriores, essas máquinas demonstraram grande durabilidade e eficiência, permanecendo em uso por mais de um século, até a introdução das prensas automáticas movidas a vapor no século XIX. A tecnologia também foi exportada para o mundo colonial espanhol, sendo enviada em 1730 para a Casa da Moeda do México, ampliando o impacto da inovação.

A análise das moedas produzidas nesse período permitiu ao pesquisador concluir que, ao contrário do que se acreditava anteriormente, as técnicas de cunhagem não coexistiram simultaneamente após os primeiros experimentos. As moedas produzidas em Sevilla entre 1701 e 1729 e em Madrid entre 1709 e 1728 foram majoritariamente cunhadas a rodillo, sendo a técnica do volante adotada de forma definitiva apenas após a intervenção portuguesa.

Assim, o estudo evidencia que a modernização monetária espanhola resultou não apenas de avanços tecnológicos internos, mas também da circulação internacional de conhecimento técnico entre Portugal e Espanha. A mecanização das casas da moeda representou um passo fundamental para aumentar a qualidade, segurança e padronização das moedas que circularam tanto na Europa quanto nos territórios coloniais americanos.


 

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