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Rio2025 com a palestrante Ana Bustamante Ayala

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Estáteres de Ouro dos Corieltauvos e as Conexões com as Moedas Galo-Belgas na Idade do Ferro Bretã

Durante apresentação na convenção da Sociedade Numismática Brasileira, a pesquisadora Ana Bustamante Ayala, graduanda em História pela UFRJ e vinculada ao Laboratório de História Antiga da mesma instituição, apresentou estudo sobre os estáteres de ouro produzidos pelos Corieltauvos (ou Corieltavi), população da Idade do Ferro que habitava a região dos Midlands, no leste da atual Inglaterra.

A pesquisa analisa as conexões estilísticas e culturais entre essas moedas britânicas e as emissões continentais conhecidas como moedas galo-belgas, particularmente as tipologias A e C.


Contexto Histórico: Bretanha na Idade do Ferro

O período abordado compreende aproximadamente do século VI a.C. ao século I d.C., fase marcada por intensa diversidade cultural nas Ilhas Britânicas. Diferentes populações ocupavam a região, sem unidade política ou identidade homogênea.

Os Corieltauvos são conhecidos principalmente por evidências arqueológicas e por menções posteriores de autores romanos, já que se tratava de uma sociedade ágrafa. Nesse cenário, a cultura material — especialmente a moeda — torna-se fonte fundamental para reconstrução histórica.

Com a chegada de Roma, essa população foi integrada ao Império Romano, mas sua produção monetária antecede essa incorporação e revela dinâmicas próprias de organização social, política e simbólica.


Moedas Galo-Belgas: Modelo Continental

As moedas galo-belgas circularam amplamente entre a Gália e as Ilhas Britânicas. Um exemplo clássico apresenta:

  • Anverso: busto laureado frequentemente associado a Apolo.

  • Reverso: cavalo, por vezes acompanhado de biga ou símbolos geométricos.

Na tipologia A, observa-se maior naturalismo. Já na tipologia C, há forte estilização: o busto torna-se mais geométrico e o cavalo mais abstrato e fluido.

Essas moedas chegaram à Bretanha não apenas como meio de pagamento — inclusive para mercenários celtas em exércitos mediterrâneos — mas também como portadoras de repertório iconográfico.


Apropriação e Transformação pelos Corieltauvos

Os estáteres de ouro corieltauvos mantêm a estrutura iconográfica básica:

  • Busto no anverso.

  • Cavalo no reverso.

Contudo, o tratamento visual é significativamente mais estilizado e abstrato. Linhas tornam-se espiraladas, formas geométricas ganham predominância e a imagem perde naturalismo.

A pesquisa argumenta que essas moedas não devem ser interpretadas como simples imitações, mas como apropriações criativas. Os Corieltauvos reinterpretaram os modelos continentais segundo sua própria linguagem estética.

O cavalo, por exemplo, possui forte simbolismo nas culturas celtas, frequentemente associado a divindades femininas e ao prestígio aristocrático. Assim, a permanência desse motivo não é casual, mas culturalmente significativa.


Função Social e Ritual

Os contextos arqueológicos demonstram usos diversos:

  • Algumas moedas foram encontradas isoladamente, indicando circulação cotidiana.

  • Outras aparecem em grandes depósitos votivos ou associadas a contextos funerários, sugerindo função ritual.

Isso reforça que o estáter não era apenas instrumento econômico, mas também objeto simbólico e marcador identitário.


Trocas Culturais no Canal da Mancha

A circulação desses tipos monetários evidencia redes de contato entre Bretanha e Gália através do Canal da Mancha.

Sem registros escritos locais, a numismática torna-se um “texto material” que revela:

  • Relações econômicas transmarítimas.

  • Compartilhamento de repertórios visuais.

  • Processos de adaptação cultural.

A presença de uma “gramática iconográfica comum” — busto e cavalo — demonstra conexão continental. A estilização progressiva, porém, indica autonomia cultural insular.


Conclusão

Os estáteres de ouro dos Corieltauvos representam mais do que cópias de modelos galo-belgas. São releituras criativas que combinam continuidade continental e inovação local.

A pesquisa reforça o papel da numismática como fonte histórica essencial para sociedades sem escrita, permitindo reconstruir identidades, trocas culturais e estruturas simbólicas da Idade do Ferro na Bretanha.


 

 
 

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