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Escravidão Africana na Casa da Moeda de Potosí: Evidências Documentais (1648–1662)

Durante conferência promovida pela Sociedade Numismática Brasileira, Juan Claudio Lechín apresentou resultados de uma extensa investigação baseada no arquivo 8069A do Archivo General de Indias. O conjunto documental, com mais de 2.500 fólios analisados, concentra-se nos processos judiciais contra falsificadores de moeda de prata em Potosí entre 1648 e 1662.

A pesquisa traz à luz um aspecto pouco enfatizado pela historiografia tradicional: a presença significativa de escravizados africanos na Casa da Moeda de Potosí e sua participação direta — tanto no trabalho produtivo quanto nos processos judiciais relativos à falsificação monetária.


Escravidão e Contexto Colonial

Lechín contextualiza a escravidão como prática histórica amplamente difundida nas civilizações antigas e medievais. Contudo, destaca que a escravidão africana nos séculos XV e XVI representou um fenômeno distinto: a primeira forma sistemática de escravidão racializada.

Com a expansão marítima europeia e a consolidação das rotas atlânticas, populações africanas passaram a ser capturadas e transportadas para a América. No caso andino, a introdução de africanos ocorreu também como resposta às limitações impostas pela legislação colonial à escravização de indígenas catequizados, especialmente após a bula papal Sublimis Deus (1537).

Em Potosí, centro minerador estratégico do Império Espanhol, a mão de obra indígena era organizada pelo sistema da mita — uma adaptação colonial de tributos de trabalho pré-existentes no mundo andino. Entretanto, fugas constantes e as duríssimas condições nas minas estimularam autoridades a buscar alternativas, incluindo a importação de africanos.


Africanos em Potosí: Trabalho e Adaptação

Segundo a documentação analisada, cerca de 5.000 escravizados africanos estiveram em Potosí no início do século XVII, oriundos de regiões como Angola, Moçambique e Serra Leoa.

Inicialmente empregados nas minas e nos engenhos de amalgamação (processo com mercúrio), muitos morreram devido à altitude extrema e aos vapores tóxicos. Posteriormente, passaram a desempenhar funções diferenciadas:

  • Capatazes e agentes de controle sobre trabalhadores indígenas;

  • Artesãos especializados;

  • Funções ornamentais e de prestígio;

  • Diversas atividades técnicas dentro da Casa da Moeda.

A documentação demonstra que africanos não substituíram estruturalmente a mita indígena, mas ocuparam posições estratégicas dentro da engrenagem produtiva e administrativa.


A Falsificação de Moeda e os Processos Judiciais

O núcleo da pesquisa concentra-se nos julgamentos conduzidos pelo visitador Francisco de Nestares Marín a partir de 1648, destinados a combater a falsificação de moeda de prata.

Nos autos, escravizados africanos aparecem recorrentemente como testemunhas-chave. Sua presença constante se explica por sua atuação direta:

  • No transporte de prata;

  • Na carga e descarga de materiais;

  • No acesso a áreas restritas da Casa da Moeda;

  • Na fabricação clandestina de chaves e no desvio de metais.

Casos individuais ilustram essa realidade:

  • Antonio Pavón, especialista em fabricar chaves falsas para acessar caixas de ensaiadores;

  • Francisquillo “el bocón”, envolvido no transporte clandestino de barras de prata;

  • Domingo Naku, escravizado pertencente a um jesuíta;

  • Juan Matamba, comerciante que testemunhou contra um ensaiador;

  • Francisca, associada ao envenenamento de uma autoridade.

Ao todo, Lechín identificou 51 nomes de afrodescendentes vinculados diretamente à Casa da Moeda nesse período.


Justiça Colonial e Discriminação

A pesquisa também revela diferenças no tratamento judicial. Enquanto um peninsular era interrogado formalmente, africanos escravizados eram colocados diante de instrumentos de tortura como forma de coerção psicológica. Curiosamente, os executores das penas não eram espanhóis, mas indígenas cañaris, evidenciando a complexa hierarquia colonial.


Memória e Numismática

O estudo reforça que as moedas cunhadas em Potosí nesse período carregam não apenas valor econômico, mas também as marcas do trabalho forçado de africanos e indígenas.

Ao recuperar nomes esquecidos nos arquivos judiciais, a pesquisa propõe uma ampliação da memória numismática, incorporando atores historicamente marginalizados na narrativa da produção monetária colonial.

Assim, a Casa da Moeda de Potosí revela-se não apenas centro técnico-financeiro do Império Espanhol, mas também espaço de tensão social, exploração e resistência.


 

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