Pedro Zaninetti apresenta palestra na Rio2025
Ouvir conteúdo
Clique para ouvir o texto completoAs Reformas Monetárias de Ê¿Abd al-Malik e a Formação da Numismática Islâmica Clássica
Durante evento promovido pela Sociedade Numismática Brasileira, o pesquisador Pedro Zaninette, mestrando em Humanidades pela Universidade de São Paulo em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia, apresentou estudo sobre as reformas monetárias do califa omíada Abd al-Malik ibn Marwan e seu impacto estrutural na formação da numismática islâmica.
A exposição contextualizou o período de transição entre o Califado Ortodoxo e o Califado Omíada, destacando as transformações políticas, religiosas e econômicas que culminaram na padronização monetária islâmica no final do século VII.
Contexto Político: Da Sucessão de Maomé à Dinastia Omíada
Após a morte do profeta Maomé, a comunidade islâmica enfrentou disputas sucessórias que resultaram na formação do Califado Ortodoxo (632–661). Posteriormente, com a ascensão de Muawiya I, estabeleceu-se a dinastia omíada, transferindo a capital de Meca para Damasco.
Esse deslocamento geopolítico alterou o eixo administrativo do império e aprofundou tensões internas, desencadeando guerras civis entre omíadas, zubairidas, carijitas e partidários de Ali. Foi nesse cenário de fragmentação que Ê¿Abd al-Malik assumiu o poder em 685 d.C., iniciando um amplo programa de centralização política e reforma administrativa.
O Sistema Monetário Antes das Reformas
Até o final do século VII, o mundo islâmico utilizava predominantemente moedas herdadas de dois grandes impérios derrotados:
-
O Império Bizantino
-
O Império Sassânida
Inicialmente, as moedas circulavam sem alterações. Em seguida, surgiram emissões chamadas “árabe-bizantinas” e “árabe-sassânidas”, que mantinham a iconografia original (imperadores ou xás) com acréscimos de inscrições árabes como bismillah (“em nome de Deus”).
Esse período híbrido demonstra uma fase de adaptação cultural e administrativa, mas ainda sem identidade monetária plenamente islâmica.
A Reforma de ʿAbd al-Malik
Diante da instabilidade política e da necessidade de consolidar autoridade, Ê¿Abd al-Malik promoveu reformas estruturais:
-
Organização de um exército permanente
-
Arabização da administração estatal
-
Reforma monetária completa
Inicialmente, o califa emitiu moedas com sua própria imagem — figura em pé segurando espada — substituindo símbolos cristãos, como a cruz bizantina (cuja haste horizontal foi removida). Contudo, essa iconografia gerou controvérsias religiosas, pois a tradição islâmica desencoraja representações figurativas, especialmente associadas ao sagrado.
A solução definitiva veio em 696–697 (ano 77 da Hégira), com a introdução do chamado “dinar anicônico”.
O Dinar 77: Marco da Numismática Islâmica
O novo modelo eliminou completamente imagens, adotando exclusivamente inscrições corânicas em estilo cúfico. Entre as inscrições estavam:
-
A Shahada (profissão de fé islâmica)
-
Versículos do Alcorão
-
Declarações de unicidade divina
Essa padronização consolidou um sistema monetário ideologicamente coerente com os princípios islâmicos e politicamente desvinculado de Bizâncio e da Pérsia.
O dinar reformado tornou-se modelo para o mundo islâmico por séculos, influenciando emissões desde o Magrebe até o subcontinente indiano.
Impacto Histórico
A reforma monetária de Ê¿Abd al-Malik representou:
-
Afirmação de soberania política
-
Uniformização administrativa
-
Consolidação identitária religiosa
-
Marco fundacional da numismática islâmica clássica
Posteriormente, governantes como Saladino retomariam modelos figurativos sob novas leituras políticas, mas o paradigma anicônico estabelecido no final do século VII permaneceu dominante.
Assim, as moedas deixam de ser apenas instrumentos econômicos e tornam-se veículos ideológicos, articulando fé, poder e legitimidade estatal.
Comentários
Área de comentários em breve...
Capítulos


















































